Por que os festivais de música do Reino Unido estão em crise?

Neste ano, 50 shows foram cancelados. A crise ameaça a indústria musical e Glastonbury segue como uma exceção em meio ao caos econômico.


O renomado festival do Reino Unido, Glastonbury, começou oficialmente. Neste fim de semana, mais de 200.000 pessoas irão para a fazenda Somerset, mas o evento enfrenta uma crise sem precedentes.

Até o momento, 50 festivais de música independentes foram cancelados, adiados ou encerrados para 2024, conforme relatado pela Associação de Festivais Independentes (AIF). Esse problema, que a indústria nunca enfrentou antes, foi agravado pela inflação, aumentando os custos de produção. Alguns festivais foram afetados pelo mau tempo, mas principalmente, as consequências tardias do Brexit e da pandemia de COVID-19 criaram uma complexa crise de crédito. A indústria dos festivais é um ecossistema delicado e, com o declínio no Reino Unido, não há crescimento em outros lugares, segundo John Rostron, CEO da AIF.

Explicações para a Crise

Em entrevista ao The Hollywood Reporter o CEO declara: “Outros setores conseguiram se adaptar rapidamente após a Covid, mas os festivais, que só acontecem por alguns dias no ano, não têm o mesmo tempo de ajuste“, explica Rostron. “Antes da pandemia, os festivais prosperavam. Quando o lockdown começou em 2020, não houve eventos, mas os organizadores usaram todo o dinheiro disponível para tentar se manter abertos, mesmo sem saber quando poderiam voltar. Eles tentaram manter suas equipes e remarcar shows, apesar de não poderem realizar eventos.


Glastonbury Festival 2024 – Day Three (Reprodução/Getty Images Embed)


Quando os festivais voltaram em 2022, o Brexit já estava em vigor. A inflação aumentou globalmente, mas com a saída do Reino Unido da União Europeia, surgiram barreiras não tarifárias que causaram atrasos nas exportações e importações. A invasão da Ucrânia pela Rússia impactou os preços da energia, e a escassez de alimentos durante a pandemia aumentou os custos. Em resumo, tudo ficou mais caro.

Consequências para a Economia

Com a receita de ingressos incapaz de cobrir os custos de produção, e as empresas de ingressos também prejudicadas pela pandemia, os organizadores agora precisam arcar com 100% dos custos antecipadamente. “Este é o pior momento que eles já enfrentaram“, diz Rostron. Crucialmente, esses festivais independentes não são administrados pela Live Nation, uma gigante do entretenimento que gerencia eventos como Reading, Leeds, Latitude e Wireless. Glastonbury, iniciado em 1971 na Worthy Farm por Michael Eavis, é uma exceção por sua enorme demanda.

Essa “tempestade perfeita” está afetando os festivais independentes. O NASS de Somerset, que atrai até 30 mil pessoas, foi forçado a cancelar em novembro. Festivais menores, muitos com décadas de história, têm um impacto significativo na indústria, pois são trampolins essenciais para artistas emergentes. “Se existisse apenas Glastonbury e nada mais, não existiria Glastonbury“, explica Rostron. “Os artistas começam em pequenos festivais e crescem.

Apresentar-se em um festival menor pode ser crucial para o crescimento de um artista. Mitski se apresentou no End of the Road em 2019, Bastille tocou no LeeFest em 2011, e Lewis Capaldi foi a atração principal do Barn on the Farm em 2018, antes de tocar no palco principal de Glastonbury este ano. Rostron enfatiza que tanto o Reino Unido quanto os EUA precisam desses festivais para desenvolver talentos.

Soluções

Rostron sugere uma solução: reduzir o IVA nos ingressos de 20% para 5%. Essa medida temporária ajudaria a salvar muitos desses festivais. “Precisamos de três verões fortes para superar os desafios”, diz ele.

Com Glastonbury em andamento, organizadores de festivais independentes veem a importância de investir em eventos de base para o bem da indústria. “Eles enfrentaram quatro anos de estresse absoluto e simplesmente não conseguem superar isso“, conclui Rostron.

Foto Destaque: Glastonbury Festival 2024 – Day Three (Reprodução/Joe Maher/Getty Images Embed)

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